Já aconteceu de você achar que teve uma ideia incrível, um negócio inovador, um trabalho que você realizou e achou impecável, mas na sequência se pegar duvidando se é tudo isso mesmo, se vai dar certo, se o resultado ficou satisfatório? E de repente, tá lá você no canto da sala pensando onde foi que eu errei, que porcaria de trabalho, eu não me dediquei o suficiente, isso não vai funcionar, eu não sei o que estou fazendo.  

Pois bem, eu achei que era só eu, mas recentemente começaram a pipocar nas minhas redes relatos similares. E pior: de mulheres que eu enxergo como referências: grandes artistas, empreendedoras, intelectuais, professoras. Mulheres que me inspiram diariamente, que me passam uma sensação de segurança, autoconfiança, sabedoria, sucesso. Mas que, assim como eu, estão lá, no canto da sala, duvidando diariamente se são capazes e se o que estão fazendo é relevante, importante ou apenas bom o suficiente para enganar todo mundo. A síndrome de impostora é implacável, mas não é democrática. Tenho convicção de que ela atinge muito mais nós, mulheres, do que os nossos colegas do sexo oposto.  

Uma amiga, esses dias, compartilhou uma situação interessante durante um processo seletivo do qual ela fazia parte como recrutadora. Um dos candidatos, homem, que não foi o escolhido para a vaga, a encontrou (diga-se stalkeou) em uma rede social e mandou uma mensagem inquisitória: queria saber qual tinha sido o critério de escolha (o que, em linhas gerais, significava querer saber por que ele não tinha sido escolhido, afinal, ele era o candidato ideal, que preenchia todos os requisitos e era mais do que qualificado para o trabalho). Agora me diga: quantas mulheres fariam o mesmo?  

Esses dois cenários combinados dizem muito sobre a nossa trajetória no mundo capitalista, que é primordialmente patriarcal. Nós conquistamos o direito de trabalhar, mas ainda não nos deram condições pra que o façamos com plenitude e com toda a nossa potência. Quando comparamos a presença de homens e mulheres no mercado, é tudo menos, exceto o trabalho, que é dobrado: o de fora e o de dentro da casa. Menos dinheiro, menos posição de prestígio, menos oportunidades, menos tempo. Mais demandas, mais tarefas, mais cansaço.  

E, além das barreiras concretas, ainda temos que ultrapassar as barreiras mentais. Passamos muitas vidas ouvindo que a nossa função era apenas e tão somente casar, gestar, parir, cuidar. Qualquer desejo fora desse espectro não era validado: uma grande bobagem, perda de tempo, você não é capaz disso, melhor não mexer em time que está ganhando. Quem, afinal, está ganhando? Dica: não somos nós.  

Então, meu convite nesta semana marcada pelo dia do empreendedorismo feminino é que nós paremos de duvidar das nossas capacidades, ignoremos os ruídos externos que insistem em nos colocar pra baixo e ouçamos o nosso instinto. Ele é a arma mais poderosa que temos a nosso favor. Nós somos criativas e proativas, especialmente em momentos de crise (tá aqui a prova, ó!), combinamos a razão e a emoção e esse resultado é lindo de ver.  Quando todas nós nos dermos conta da potência que temos (e somos), o mundo vai ficar pequeno pro tanto que seremos capazes de criar e fazer e acontecer.   

Daniela é jornalista e locutora há 15 anos, mãe do Gael, de quase 4 anos, e da Maia, de 6 meses. O estresse da cidade grande a fez encontrar, no yoga, um caminho de autoconhecimento. Mas foi na primeira gestação que pôde se aprofundar na potência do próprio corpo. Dois partos naturais depois, segue na busca pelo equilíbrio mental e físico e em formas menos danosas de existir no mundo. Apaixonada por viagens e viciada em café.

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